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  • Stefano Giorgi

ASSIM POSTOU ZARATUSTRA

Passeando com o Foca, meu cachorro, esbarro em uma matéria em uma banca de jornal: “INSTAGRAM DA DEPRESSÃO’’. Era a capa da Veja São Paulo. Como acho a revista uma bosta, nem me preocupei em ler a matéria. Até mesmo porque, antes de levar o Foca de volta para casa, vi na prática o assunto exposto – zumbis pelas ruas com as cabeças abaixadas olhando fixamente para os celulares e disseminando como suas vidas são maravilhosas em um reality show eu-memista. seando com o Foca, meu cachorro, esbarro em uma matéria em uma banca de jornal: “INSTAGRAM DA DEPRESSÃO’’. Era a capa da Veja São Paulo. Como acho a revista uma bosta, nem me preocupei em ler a matéria. Até mesmo porque, antes de levar o Foca de volta para casa, vi na prática o assunto exposto – zumbis pelas ruas com as cabeças abaixadas olhando fixamente para os celulares e disseminando como suas vidas são maravilhosas em um reality show eu-memista.

"Que merda eu estou fazendo da minha vida?!”, pensei. Eu trabalho com essa porra de rede social há bons seis anos. Não só Instagram. Todo o resto também. E a sensação ao final do passeio com o Foca foi de asco. Como se durante seis anos eu tivesse trabalhado para a indústria tabagista e acabasse de descobrir que cigarros causam câncer. E, complementando a figura de linguagem, eu vendesse cigarros para crianças. A vontade era de vomitar. E não foi recolher o cocô do meu cachorro que me deixou com ela.


Eu deletei os apps do Facebook e do Instagram do meu celular. A náusea momentaneamente passou e eu recuperei a compostura o suficiente para lembrar que no fundo no fundo eu já sabia tudo que estava me incomodando naquele momento. Não só sabia, como muitas vezes na minha carreira usei isso a meu favor. Usei o tal FOMO (Fear of Missing Out) como motor das minhas estratégias em inúmeras apresentações para diferentes marcas. Fiz isso até mesmo para o próprio Instagram Brasil e Facebook Brasil que foram meus clientes em uma das agências que trabalhei. Então, por que aquele súbito peso de consciência? Porque quando uma revista como a Veja São Paulo coloca como matéria de capa uma coisa que eu já sabia há anos, significa que phodeu mesmo – e penso nisso lembrando de uma influenciadora que se matou na semana passada por conta de comentários nas redes e depressão.


Me arrumo e vou para o trabalho. No metrô, a maioria das pessoas de olho nos celulares. No ônibus, gente até vendo IG Stories em volume alto. “Puta que pariu, o que foi que eu ajudei a criar?”. Tento fugir desse cenário que me incomoda e abro Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, meu livro do mês no transporte público de SP. Leio uma das muitas passagens sobre o Übermensch – o super-homem (não o dos quadrinhos). Quando termino a passagem, olho ao meu redor. “Seria esse o meio-dia esperado? Esses são os super-humanos que o Zaratustra tanto profetizou? ”. Chego em uma triste constatação: poderiam ter sido.


Como assim? Bom, se por alguma razão viajar no tempo fosse possível – a bordo de uma DeLorean ou pelas Partículas Pym em busca das Joias do Infinito –, eu voltasse para o final do século XIX para trocar uma ideia com Nietzsche tomando um porre de absinto, mostrasse para ele uma caixa espelhada preta, mais fina que um Moleskine, e contasse que ali eu poderia buscar qualquer conhecimento do mundo, traduzir todo tipo de idiomas em questão de segundos, ter mapas de navegação com rotas para onde quer que eu quisesse chegar e, o melhor de tudo, que conseguiria transmitir minha imagem e minha ideias para milhares de pessoas ao redor do planeta no simples movimento dos meus dedos, acho que ele diria: “O super-homem é metade máquina!”. Agora, se eu abrisse o YouTube e mostrasse alguns canais de YouTubers famosos... eu não faço ideia de qual seria a reação. Não sei se Nietzsche iria desacreditar que com uma tecnologia tão poderosa as pessoas chamadas de influenciadores estão, em sua maioria, longe de ser filósofos, acadêmicos, escritores ou, de forma mais generalistas, simplesmente sábias ou se só iria sentar e chorar.

Voltando para minha ordem temporal nesse multiverso, quero expressar um ponto. A ideia das redes sociais é ótima! Um mundo conectado, disseminando informação, conhecimento, arte e todo tipo de conteúdo. A prática, no entanto, é o que desaponta. Fake news, polarização, hiperssexualisação, ego eu-memista, depressão – puta que pariu, como a gente conseguiu foder uma coisa que poderia ser tão boa?! E sim, por mais enojado que eu tenha começado a escrever esse ensaio, eu acredito que a ideia central das redes sociais seja boa. Caso contrário, seria o cúmulo da hipocrisia criar um post no LinkedIn para falar sobre o tema. Mas a realidade é que redes sociais estão cada vez mais merdas e eu me vejo como parte dos responsáveis por isso.


Apesar da capa da Veja São Paulo falar especificamente sobre o Instagram, a rede está longe de ser um caso isolado. O aplicativo mais baixado ano passado (e provavelmente esse ano) é o TikTok. O TikTok é uma plataforma social de vídeos curtos com interação verticalizada, com funções musicais e efeitos visuais que a tornaram extremamente popular com a Geração Z. O crescimento da plataforma é assombroso. E o teor dos conteúdos também. Vou pausar minha escrita agora, pegar meu celular e rolar pelo feed do TikTok para descrever os três primeiros vídeos que aparecem como descobertas para mim: a bunda de uma menina de sutiã e shortinho rebolando ao som de um funk com teor sexual, uma menina fazendo uma dublagem com uma letra de funk falando sobre ecstasy, um casal russo abraçando um leão da montanha (esse eu achei fofo, porque o leão estava livre e feliz com o casal). Dá para se ter uma ideia do rumo que a coisa está tomando, não?! Claro que o TikTok tem muito conteúdo de qualidade também, não dá para generalizar. Mas a quantidade de lixo produzida é difícil de reciclar. E isso é o que me desaponta.


Até no LinkedIn a coisa não está das melhores. Perfis em outras redes como o Vagas Arrombadas (sensacional) e o Fanfics Corporativas reportam diariamente conteúdos absurdos postados por aqui de pseudo-empreendedores geniais e, a nova onda do momento, coaches de sucesso. Nem mesmo uma rede que supostamente é para profissionais do mercado se conectarem está a salvo.



É como se os prisioneiros da Caverna de Platão tivessem ganho smartphones e, ao invés de buscarem informações para se libertarem, preferem postar selfies e criar conteúdo de suas vidas incríveis na escuridão. E, detalhe, foi gente como eu que jogou os smartphones para eles se distraírem.


Então, como procurar a luz no meio de tanto eu-memismo no escuro? Não faço ideia. Eu tive que baixar de novo o Instagram três dias depois de deletá-lo para poder fazer algumas entregas no trabalho. Ou seja, eu também estou no escuro. Mas estou tateando a caverna em busca de um ar menos carregado e claridade. Comecei a desseguir selfeiros e selfeiras de plantão, divulgar canais de YouTube inteligentes (o vídeo do Wisecrack no começo desse texto, caso não tenha percebido, é um exemplo disso) e vomitar conteúdo sem falso positivismo como esse que você está lendo aqui. Mas, acima de tudo, estou de pouco a pouco encontrando e guiando outros na JOMO (Joy of Missing Out – essa tendência é contrária ao FOMO e existe, não tirei da minha cabeça). A luz que enxergo no final do túnel é ver que existe qualidade de vida com redes sociais – excluir tudo, especificamente na minha carreira, seria idiotice. O negócio é saber dosar. É aproveitar o escuro para curtir uma night caótica e buscar a claridade para parar de tropeçar tanto nos pés dos outros.  Não é simples. Não é fácil. Mas se a gente não fizer isso, tenho medo da capa da Veja São Paulo daqui a alguns anos...


#SalveGiorgi #RedesSociais #CriaçãoDeConteúdo #Filosofia #Zaratustra

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