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  • Stefano Giorgi

FYRE FESTIVAL - o que não falam sobre o mundo de eventos


Chego no trabalho na 2ª feira e faço uma recomendação:


- Assistam ao documentário “Fyre Festival: Fiasco no Caribe” na Netflix.


Alguns me perguntam sobre o que se tratava. Outros, empolgados, falam que também viram o documentário no final de semana e começam a desenvolver a conversa. Entre os que assistiram e os que não assistiram surge um fato tragicômico: todos reunidos ali já passaram por alguma coisa semelhante a um dos fatores que levou o Fyre Festival a ser um fracasso.


ALERTA DE SPOILERS


O documentário da Netflix fala sobre o gigantesco fracasso que foi o Fyre Festival, um festival de luxo nas Bahamas criado para promover uma plataforma digital para agendar estrelas da música de um jeito mais prático.


A ideia era fazer um festival super premium em uma ilha das Bahamas que pertenceu a Pablo Escobar. O Fyre teria grandes nomes da música como head liners, acomodações incríveis e um cardápio elaborado por um chef renomado, além de opções de upselling da experiência toda. Em 48 horas os pacotes (que custavam A PARTIR DE 4.000 DOLÁRES) foram esgotados graças a divulgação em redes sociais feita por influenciadores, modelos e artistas famosos. Segundo alguns dos envolvidos, marcas estavam pensando em tirar dinheiro do Coachella para colocar no Fyre Festival de tão grande que foi o buzz gerado.


Entretanto, existe uma grande diferença entre promover um festival de sucesso e fazer um festival de sucesso. Não que promover qualquer coisa seja uma tarefa fácil, mas existem muitos pontos de atenção na realização de um evento como o festival proposto.


Para começo de conversa, o tempo hábil que os organizadores tinham para realizar o evento era curto e a captação de verba para atender ao que foi prometido ao público foi risível. Entretanto, o primeiro grande pepino do Fyre Festival foi algo muito comum a eventos destinados ao fracasso: a escolha de local.


A escolha da ilha do Pablo Escobar era péssima. A ilha simplesmente não tinha nem perto a estrutura necessária de energia e água para um festival como o proposto e não comportava o número total de público. A única coisa que tinha era um grande apelo promocional.


Como se o universo estivesse mandando um sinal para os envolvidos no “Fyre Festival”, os organizadores perderam a ilha do Pablo Escobar em questão de dois tweets e tiveram que buscar um novo local para realizarem o evento. O novo local escolhido era bem diferente do que foi prometido: um canteiro de obras na ilha de Exuma, uma das mais visitadas das Bahamas. Lá se foi o ineditismo...

Mesmo perdendo a ilha inicial, o cenário para o festival ainda era de tirar o fôlego. Afinal, a ilha de Exuma continua sendo um local paradisíaco. Entretanto, as acomodações incríveis viraram barracas de refugiados (sem exageros) por questões financeiras e logísticas. O mesmo aconteceu com o cardápio. O evento super premium virou praticamente um alojamento de jogos universitários como é o Economíadas. Nesse momento existia uma crise que precisava ser gerida. O problema era gigantesco, mas poderia ser revertido através de esforços de comunicação, captação de verba com possíveis novos patrocinadores ou mudanças de diretrizes para a realização do evento. Segundo relatos, os organizadores do festival seguiram por outro caminho. Pediram a todos para manterem uma atitude positiva e ignoraram os avisos de seus subordinados. É algo tão absurdo que eu não teria acreditado... se não tivesse passado por experiências parecidas com gestores no passado.

Lembrei do começo da minha carreira, especificamente de uma ação com influenciadores digitais em um megaevento que eu avisei que “daria merda”. Minha superiora direta não ouviu e nossa diretora muito menos. Me mandaram ser positivo e fazer o que estavam mandando. Em um dos poucos momentos de indisciplina na minha vida do qual me orgulho, me recusei e fui conciso. Resultado, o gerente da área foi realizar o que estava sendo pedido. E advinha o que aconteceu? Deu merda. Uma merda tão grande que a imprensa internacional estava noticiando sobre o evento e sobrou para tudo quanto era lado... menos para mim, que não encostei um dedo na ação.


A maioria dos envolvidos no Fyre Festival não tiveram essa postura. Aceitaram todas as ordens que receberam esperando que algum milagre acontecesse. Mas não aconteceu. Ao invés de um milagre, um dia antes do evento veio a chuva. O que já prometia ser um desastre ficou ainda pior.


Nos momentos de pré-produção e produção de qualquer evento existem muitos momentos caóticos em que parece que tudo vai dar errado, mas no final tudo dá certo. No caso do Fyre Festival o caos era tão grande que qualquer um poderia ver que tudo daria errado. E foi o que aconteceu. O festival foi um fracasso tão grande que acabou sendo cancelado depois da 1ª noite, o organizador principal, Billy Mcfarland, foi processado, preso, solto por fiança e preso de novo, e milhares de pessoas ainda esperam para receber indenizações por ingressos pagos ou serviços prestados.


- Você não sente um pouco de pena do cara? – perguntou minha namorada, se referindo ao Billy. – Quero dizer, ele é um mentiroso, mas ele estava tentando até o último segundo fazer o negócio acontecer...


- Não, eu sinto pena de quem trabalhou e não recebeu – respondi, contando em seguida sobre um calote que tomei fazendo um freela para o projeto de um réveillon de um club em Trancoso em 2016 no qual ninguém foi pago. Nem eu, nem os RPs, nem os DJs, nem os garçons, nem os seguranças, nem os cozinheiros, nem ninguém.


Ver o documentário do Fyre Festival é uma aula para quem quer entrar no mundo de eventos. Tudo parece tão legal e incrível do lado de fora, mas a realidade é bem diferente. Não me leve a mal, eu amo meu trabalho. Mas alguns momentos da minha carreira e algumas pessoas que conheci quase me fizeram largar tudo e ir vender artesanato na praia. Por isso, tem algumas lições que podem ser extraídas do documentário que eu quero ressaltar aqui:


1-     Tem muito picareta por ai que se vende como visionário. Conheça bem para quem você está trabalhando, não apenas pela reputação de projetos passados, mas pelas atitudes em projetos atuais.

2-     Ao contrário do Andy, que ia pagar um boquete para o chefe da alfândega das Bahamas liberar os containers de água (sério, isso está no documentário), saiba dizer não. Tem coisas muito piores em uma carreira do que ser demitido.

3-     Não prometa mais do que você possa cumprir. E, como imprevistos acontecem, comunique possíveis mudanças da forma mais transparente possível com seu público.

4-     Rede social é uma forma de comunicação bilateral. Parece tão óbvio, mas tem tanta gente que se nega a responder o público! Deixar comentários e mensagens sem respostas gera frustração e insegurança a respeito do que quer que esteja promovendo em canais digitais não apenas para o emissor do comentário e da mensagem, mas para outros usuários das redes.

5-     Escute quem está trabalhando com você. Se tem alguém relatando um ponto de atenção, preste atenção. Ignorar pode fazer um probleminha virar um problemão.

O final do documentário me deu uma sensação de justiça misturada com frustração. Apesar de Billy ter sido preso e de sua carreira fraudulenta ter acabado com sua reputação no mercado, fiquei pensando o seguinte: quantos outros picaretas do mundo de eventos estão livres por ai? 


#FyreFestival #LiveMarketing #SalveGiorgi

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