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  • Stefano Giorgi

Porque preferi não participar de O Aprendiz


– Alô, Stefano? – indagou uma voz feminina assim que atendi o celular.


– Ele mesmo. Quem gostaria? – perguntei, com algumas suspeitas sobre a possível resposta.


– Aqui é a Érica, da produção do programa O Aprendiz. Eu estou te ligando para te dar os parabéns! Você foi selecionado para a etapa final da nossa seleção de casting.


– Ah, que legal – disse, orgulhoso de mim mesmo. – Eu achava que vocês iam me ligar nessa semana, por isso atendi rápido desse jeito. Como vai funcionar a próxima etapa?


– Você poderia vir participar de uma entrevista gravada nesse sábado de manhã?


Era quinta. Eu tinha um compromisso inadiável.


– Infelizmente não consigo. Eu viajo amanhã para Manaus. No sábado de manhã estarei pegando um baco para nadar com os botos e visitar uma tribo indígena. Não seria possível fazer essa entrevista via vídeo-chamada amanhã?


– Ah que pena. Olha, vou checar com o diretor do programa sobre a possibilidade de você fazer via vídeo-chamada. Mas não se preocupa, a gente provavelmente vai fazer mais uma rodada de entrevistas.


Desliguei o telefone e mandei uma mensagem para Carol, contando o que tinha acontecido. Na hora ela respondeu:

“Amor, se você quiser adiar a viagem, não tem o menor problema. Você quer muito isso?”

Durante anos participar de um programa como O Aprendiz tinha sido meu sonho. Eu até escrevi no meu anuário do colégio, só de zoeira, que no futuro seria um dos vencedores do reality show e demitiria pessoas como Roberto Justus. Felizmente, a vida me levou por outros caminhos e eu mudei muito. Aquele moleque coxinha do Dante ficou para trás junto com aquela vontade louca de participar do programa.

“Não, não vou trocar essa viagem que a gente esperou tanto tempo por uma chance de participar desse negócio. Se der, depois eles me chamam. Senão, paciência.”

Essa foi a reação que externei. Mas, por dentro, estava muito confuso. Por mais que participar de O Aprendiz não seja mais meu sonho, ainda é uma puta oportunidade. Já pensou ganhar o programa e ter 1 milhão de reais na conta? Pois é, eu pensei. Com esse dinheiro aliado à visibilidade que o programa me daria, poderia realizar muitos sonhos atuais. Em compensação, também teria que ir na contramão de tudo o que prego e acredito. Por isso me inscrevi no programa no último dia possível. E por isso deixei para o destino decidir se seria chamado de novo para uma entrevista ou não.


Eu e Carol embarcamos para Manaus no dia seguinte. Lá conhecemos o Teatro Amazonas, comemos tacacá, tomamos caipirinha com cachaça de jambú, nadamos com os botos, visitamos uma tribo indígena e partimos para uma viagem de 4 dias na selva, sem sinal de celular ou internet. Foi uma das melhores viagens que fiz na vida.



Quando voltei para Manaus, as mensagens de celular começaram a surgir de novo. Em uma delas, Érica perguntava:

“Ainda está viajando? Temos mais entrevistas na 5ª e na 6ª.”

Minha partida para São Paulo estava marcada para a madrugada de 6ª para sábado. Se eu resolvesse encurtar minha viagem em apenas 1 dia, conseguiria chegar na entrevista. Bastava mudar o voo e cancelar uma diária de hostel em Presidente Figueiredo. Era algo bem fácil de ser feito. E foi aí que comecei a pensar em tudo o que aquela decisão representava.


Bom, como dito, participar de um programa como O Aprendiz é uma oportunidade única. Entretanto, vai muito contra muitos dos meus princípios. O programa é uma projeção social da crueldade e frieza coorporativa da qual eu tenho tanto nojo e que me fez criar o Salve Giorgi como um caminho alternativo. Se de um lado eu teria 1 milhão de reais, de outro estaria aceitando esse dinheiro sendo cúmplice de um modelo que segue uma filosofia com as características abaixo:


- Você deve deixar sua vida pessoal de lado para ter sucesso profissional – Os participantes de O Aprendiz devem ficar confinados e isolados durante os 3 meses de gravação sem qualquer motivo que faça sentido. Se encontrarem alguém que conhecem durante um desafio, devem fingir que não conhecem essa pessoa. Parece loucura, mas isso acontece for da TV. É aquele chefe que te faz trabalhar no feriado que você tinha combinado de viajar com a família ou os amigos. Ou aquele trampo que te obriga a varar a noite e estar cansado demais para aproveitar qualquer coisa fora do escritório. A mensagem é que um “aprendiz” de empresário deve ser um robô sem emoções ou vida útil fora do emprego.

- Seu chefe é seu dono – Eu não conheço Roberto Justus fora do programa, por isso nada do que escrevo aqui é voltado para sua pessoa, mas para o personagem que foi construído midiaticamente. A figura de chefe todo poderoso representada por Justus é similar a de um senhor de engenho do mundo da comunicação. Os aprendizes entram na Sala de Reunião para tomarem surras morais, estando amarrados a edição do programa e a contratos que não os permitem responderem à altura. A falta de empatia e a dureza como Justus trata os participantes do programa ali chega a ser abusiva. Mas, como está na TV, serve para legitimar o mesmo tipo de tratamento fora das câmeras.



- Conselhos de quem não está apto para aconselhar – A participação do coach José Roberto Marques foi muito criticada durante a última temporada do programa. Eu trabalhei na Band e vi os bastidores do que estava acontecendo em O Aprendiz, por isso posso dizer com toda segurança: aquele cara realmente não falava nada com nada. Aliás, pior, tudo de positivismo que ele exalava para as câmeras, fazia diferente por trás delas. Mas, como patrocinador, tinha seu direito de fala por contrato. Já a Vivi foi muito elogiada. Realmente é uma mulher comunicativa e que sabia do que estava falando na maioria das vezes. Entretanto, ela é a síntese do que a vitória no programa representa. Vivi ganhou o 1º O Aprendiz. Depois de 20 anos, ela continua no mesmo lugar: trabalhando com Roberto Justus e fazendo todo tipo de maluquice para atender suas demandas. Em mais de uma ocasião eu a vi chorando pelos corredores da Band por causa de brigas com o coach ou com o chefe. Vivi é muito capaz e inteligente sim, mas passados 20 porras de anos ela ainda não saiu do programa. Ou seja, como é que essas duas pessoas estão aptas a dar conselhos para e sobre os profissionais que estão se matando ali?


- A estrutura piramidal do prêmio – Esse para mim é o ponto mais pesado da representação social do programa. Todo mundo que participa de O Aprendiz abdica de parte da vida, se esforça, se submete a humilhações e ajuda o vencedor final, em algum momento, a ganhar seu prêmio. Em compensação, é só o vencedor final que leva o dinheiro mantendo a estrutura piramidal de riqueza: enquanto 1 ganha 1 milhão, os outros que trabalharam e se esforçaram tanto não ganham nada. Tudo bem, estamos falando de uma competição e é aceitável o fato de ser possível apenas um vencedor. Entretanto, meu incômodo não é no formato da disputa, mas na sua representação social. Enquanto poucos tem tanto, outros não tem nada. E é meio que essa é a mensagem final do programa. Se você deixar sua vida pessoal de lado, se baixar a cabeça para tudo que seu patrão falar, se escutar conselhos de quem não está apto a te aconselhar, pode um dia pertencer aquela casta de 3% da população – enquanto as pessoas que caminharam com você até lá vão continuar na merda.

“Oi Érica, ainda estou viajando e não consigo antecipar minha volta. Sinto muito. Boa sorte no seu casting.”

– Você tem certeza do que fez? – me perguntou Carol, depois que eu mostrei a mensagem para ela.


– Não. Talvez tenha sido um puta idiota por ter feito isso. Mas, depois de tudo o


que a gente aproveitou nesses dias, e senti que era o que deveria fazer. – E resolvi complementar com algo que a deixaria feliz com minha decisão. – Afinal, como é que passaria 3 meses longe de você?!


Carol riu e me beijou. Aquele beijo me garantiu que tomei a decisão certa.


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