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  • Stefano Giorgi

UM CONTO DE NATAL (NO VAREJO) - meus maiores aprendizados como vendedor extra em dezembro

Durante anos trabalhando em agências de publicidade, empresas, emissoras de TV e até órgãos governamentais, adquiri muita experiência na área de comunicação. Fiz planejamento, redação, mídias sociais, Live Marketing e até produção de eventos. Mas se tem uma coisa que eu não tive nada de experiência (nem jeito) é a área comercial. E não é segredo que qualquer negócio precisa de um setor de vendas forte para poder lucrar. Sendo assim, para abrir o Salve Giorgi, resolvi aprender como vender no ambiente mais agressivo possível. Fui até o shopping Higienópolis e entreguei meu CV em uma loja de roupas premium. Uma semana depois, comecei a trabalhar como vendedor extra no período de Natal.

Ao todo foram 45 dias de vendas e aprendizados. Alguns dias foram tranquilos e divertidos, com pouco movimento, bons clientes e conversas agradáveis entre meus colegas de equipe. Em compensação, a maioria do meu tempo como vendedor foi caótica, cheia de estresse, pressão e falta de respeito. O próprio ambiente da loja era favorável à desestabilização mental dos membros da equipe. A falta de janelas fazia cada um de nós perder a noção de tempo e a repetição de músicas de merda de novo e de novo e de novo produzia um efeito similar às composições de Beethoven em Alex no filme Laranja Mecânica (1971). Algumas pessoas desistiram antes do negócio pegar fogo. Outras, depois que o fogo apagou e o marasmo reinou. E poucas resistiram à vontade de ligar o foda-se e mandar todo mundo tomar no cu até o término do contrato. Eu me enquadrei nesse último e seleto grupo.

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Se valeu a pena? Muito. Mas muito mesmo! Tanto pelo aprendizado quanto pela grana (não vou mentir). Agora, se eu faria de novo? Nem fodendo. Simples assim. E vou te contar as razões por trás dessas duas respostas na lista abaixo, que sintetiza meus maiores aprendizados nesses 45 dias.


- Para começar, preciso falar que fiquei impressionado com a falta de educação de grande parte dos clientes e com a passada de pano da administração quanto a isso. Por favor e obrigado não matam ninguém. Muito menos olhar na cara de quem está te atendendo. Um cliente escroto não deveria ser tratado como um ganhador de Prêmio Nobel. Na verdade, ao meu ver, lojistas deveriam se dar o direito de recusar atender algumas pessoas. Fiquei sabendo de um caso de racismo (que aconteceu em outra loja do shopping) onde o vendedor simplesmente teve que baixar a cabeça enquanto o racista de merda fazia suas compras e seus comentários desprezíveis. Na minha concepção de mundo, isso é claramente um retrato de um país com a herança maldita de um passado escravocrata que faz o lucro, por menor que seja, ser mais importante do que o bem estar de um funcionário. E isso nos leva ao próximo aprendizado.


- Grosseria é epidêmica e não tem cor, classe social, crença ou gênero. Pessoas mal educadas são simplesmente mal educadas. Ter algum preconceito apenas agrava essa epidemia. Tive apenas um colega vendedor extra que olhava com desdém para algumas pessoas que entravam na loja. Em mais de uma ocasião seus clientes voltaram para a loja e fizeram compras caras sendo atendidos por outros vendedores.

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- Cliente bom não é necessariamente o que gasta mais dinheiro e isso pode até ser numericamente comprovado. Por exemplo, 1 cliente pode gastar o mesmo que 3 clientes, mas demorar mais do que 5 para finalizar a compra e sugar a energia do vendedor mais do que 10.


- É perceptível como os maiores níveis da hierarquia são alheios ao cotidiano de uma loja, mas dão ordens de forma míope quando aparecem por lá. O mais absurdo que vi foi uma supervisora reorganizando a loja em pleno dia 22/12 atrapalhando vendas, incomodando clientes e desgastando vendedores. Foi essa mesma supervisora que me viu almoçando com minha namorada um dia na praça de alimentação e quis saber, espantada, se eu tinha saído para almoçar com uma cliente (quase respondi que além de camisas de linho e bermudas de piscina eu também estava vendendo meu corpo na loja). Independentemente de qualquer coisa, positiva ou negativa, algum Jestor (com j mesmo, de jumento) sempre aparecia na loja para pressionar ainda mais a equipe de vendas que já estava pressionada. Como será que alguém consegue achar isso produtivo?


- Os níveis mais altos da hierarquia não conseguem entender algo que está bem claro para qualquer pessoa que trabalha em shopping: a crise que vivemos não é passageira, nem é de fato uma crise. As coisas estão mudando, especialmente o jeito como as pessoas consomem. A tendência é que se compre cada vez menos em lojas como na qual eu trabalhei. O luxo não é mais baseado em coisas e sim em experiências. E, diga-se de passagem, a experiência de ir fazer compras em um shopping lotado no final do ano não é muito um luxo na vida da maioria das pessoas – é mais um martírio.


- Nada motiva ou desmotiva mais um funcionário do que o dinheiro que ele vai ganhar no final do mês. Aquela babaquice de startupeiros e coaches do LinkedIn de ter videogame e chope no escritório pode até dar uma ajudinha no humor da galera aqui e ali. Mas no final do dia é a grana quem fala mais alto. E a grana que um vendedor ganha no Natal é muito boa. Melhor até do que o salário de muitas agências onde trabalhei.


- Para ganhar essa grana boa, como descrevi acima, um vendedor tem que ficar na loja quase o dia inteiro durante, pelo menos, duas semanas. Sério, alguns dos meus colegas ficavam atendendo clientes durante 11 horas. Imagina a situação de alguém que tem que atender uma pessoa depois de passar 11 horas em pé, sem comer direito, correndo para baixo e para cima (e multiplique essa situação por 15x). Não é à toa que nesse período as brigas entre funcionários aumentam e que alguns clientes reclamam por serem mal atendidos. Isso novamente é o reflexo das prioridades de muitas empresas do setor: vendas >>> bem estar dos funcionários. Infelizmente não sei os números por trás das decisões que guiam a empresa, mas não consigo deixar de me perguntar: custa tão caro assim uma remuneração justa para a força de vendas ou é uma estratégia da gerência fazer os funcionários se matarem de trabalhar no Natal? Porque, se for uma decisão estratégica, devo dizer que os efeitos negativos são muito maiores do que os lucros...


- A ilusão de liberdade de escolha é a desculpa perfeita para todo tipo de abusos e serve como maior fator de dominação mental que permeia diferentes níveis hierárquicos do varejo. Aqui temos o conceito de dominação social legítima (conforme exposto por diferentes filósofos) aplicado à prática. Nessa ideia de relação de poderes, o dominado aceita sua submissão por acreditar que existe uma justificava plausível para tal. No caso da loja onde trabalhei, por exemplo, os vendedores achavam ok trabalharem 11 horas por dia, porque acreditavam que a empresa estava ajudando-os a ganharem mais dinheiro. Outro bom exemplo foi o caso de uma funcionária que acreditava que sua obrigação de comprar seus próprios uniformes (que custavam 500 reais) ao invés de recebê-los da loja era legítima, já que tinha sido previamente imposto pela gerência para sua contratação. A ideia na cabeça de vários colegas em diferentes casos que considerei abusivos era: isso é ok, porque eu concordei. Mas na verdade não houve uma concordância e sim uma imposição. Ou você se fode para comprar nosso uniforme, ou não tem emprego. Ou você fica umas 11 horas aqui, ou vai ganhar um salário de merda.



- Uma coisa muito positiva do trabalho de um vendedor no varejo é não levar o trabalho para casa. Foi uma experiência diferente de agência de publicidade – eu chegava em casa e podia ligar o foda-se para meu whatsapp e meus e-mails. Quero manter essa prática agora no meu novo negócio. Não sei se vai dar certo, mas vale a pena tentar.


Após todos esses aprendizados, gostaria de citar o maior de todos que deixei fora dessa lista: as características abusivas e servis do trabalho de um vendedor no varejo não se restringem exclusivamente ao varejo. Na verdade, quando parei para pensar um pouco, vi que em publicidade também é assim. E, conversando com amigos engenheiros, advogados, economistas e até arquitetos, percebi que a relação de poder que permeia a maioria das profissões tem os mesmos traços que citei entre meus aprendizados, caraterizados pelo descaso do bem-estar pessoal de funcionários em prol a lucros, atitude servil e dominação social legítima. O pior de tudo é que tem gente que defende esse modelo como fórmula do sucesso – vide alguns posts da página Vagas Arrombadas, se você não acredita.


Abrindo meu próprio negócio tenho, pela primeira vez na vida, a chance de fazer as coisas de um jeito diferente. Meu maior medo não é fracassar e falir. É me tornar um hipócrita promovendo tudo aquilo que eu critiquei nesse texto. Mas, independentemente do resultado da minha empreitada, posso dizer que pelo menos em um primeiro momento eu tentei.


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